Seta

É de manhã, sinto um enorme enigma em abrir meus olhos.
“Que dia é hoje?”, me investigo tentando evitar qualquer esforço de minha dolorida cabeça.
Tenho medo, vejo meu apartamento vazio, livros encaixados, poeira sobre as prateleiras. Faz anos que estou pronto para a mudança, mas ela nunca ocorre. As vezes penso no por que; mas não chego a conclusão alguma.
“É domingo?”; indaga minha mente num estrondo estarrecedor. Não há nervo em minha face que não tenha se contraído com tamanho abuso de exposição de pensamento. Não me lembro, mas acredito que tenha bebido muito na noite passada. Me ocorreu agora que não me lembro de ontem ter sido sábado, tampouco de anteontem ser uma sexta feira.
“Ai”; exclama novamente minha mente. Agora notei que há uma grande saliência em minha cabeça, e dói, dói muito.
Será que fui levado pela dura? Não é plausível, não estaria aqui. Para meu conforto meus dedos estão todos incólumes.
O que poço fazer? A quem poço recorrer neste momento de insegurança e desconfiança?
Será que eu fiz o que não devia? Onde andarão meus amigos? Meu amor? Meus companheiros?
Vejo ao chão ao lado da porta um folheto, dobrado, fala algo sobre “a vida eterna” sita uma tal escritura sagrada.
“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH”; desabo num misto de dor e esforço de lembrança. Como pode ser tão dolorido arrebatar um pensamento. Me lembro de algo agora: Um casal bateu a porta do visinho e os escutei falando algo sobre a única salvação. recordo que eles também bateram a minha porta, ACHO QUE NÃO ABRI! Sim me lembro de ter debruçado no aparador para observar por cima quem seriam aquelas pessoas, depois disso “PÁ”! Não me lembro de mais nada.
Irei procurá-los, isso deve ter sido uma terrível punição de seu Deus.

Evandro

Que saco baterem na porta da gente tão cedo logo num dia de domingo! São 07h50!!!(…) Mas que horror! Qual o indecente que insiste e que continua batendo? Será que não percebe o cara que quero mesmo é dormir, que não tenho problema de audição? (…) Não há alternativa: vou levantar e ter que atender a esse desesperado.
Que é que é? Isso lá é hora? Hã? Testemunha??? Não tenho problemas com a justa não, e nem com juiz, com ninguém. Poxa, minha vida é limpa. Até aquela dívida com o condomínio já acertei… Do Jeová? Conheci em criança. Ele está bem? Não sabia que ele era a vítima, que chato.
Peraí! Como não entendi? O Jeová é gente boa… Tudo bem que a gente era criança, mas ele já tinha bom caráter na época! E sonado é tua avó, babaca! Não sou assim agressivo.
Revista? Tem o caso do Jeová nela? Porque eu só seria testemunha de um cara como ele. Você vai a favor dele, não vai? Deixa eu ver. Hum, torre de vigia… Fizeram escuta no telefone dele então? Esse povo é maldoso! Li no jornal que esse negócio aí está proibido. Você sabe disso? Pois é.
Olha, eu vou tomar café agora. Volta amanhã, segunda, que eu anoto direitinho onde vai ser a audiência do Jeová. Quanto ao vigia, espero que ele seja punido.
Como é que é? É você, canalha! Quem é burro é tua mãe! Sai já daqui ou eu te meto uma porrada na cara, vagabundo. Corre mesmo! (…) Droga! Vou ter que tomar um remédio prá dor de cabeça antes de ler meu livro de religião. Que domingo!!!