Medo
Eu estava sozinho na escuridão do meu quarto, num dia em que aquele frio de gelar a espinha se fazia presente. O silêncio só me deixava ouvir os trovões lá fora. As gotas de chuva batendo assimetricamente na janela, na qual se via apenas escuridão. Vez por outra a silhueta do velho carvalho destorcido em meu quintal era projetada no quarto, junto com a claridade de relâmpagos. Aquela silhueta lembrava assustadoramente uma mão, com seus dedos se esgueirando pelo meu quarto como que procurando a próxima vítima.
Aquela casa antiga, tão antiga quanto o velho carvalho, tinha muitas historias para contar. Os gemidos e estados do seu piso de madeira soavam como uma voz macabra querendo contar uma historia de dor e sufocamento.
Sentindo calafrios com toda aquela situação, puxo vagarosamente o lençol para me cobrir. Tenho muito medo. A escuridão… todos aqueles sons e gemidos parecem fantasmas do meu passado que vieram cobrar suas dívidas.
Minha atenção se volta brucamente para o lençol. Percebo que ele está mais pesado que de costume, como se uma mão o segurasse nos limites da cama.
Por instantes solto o lençol e fecho meus olhos, tenho medo. Tento puxar novamente o lençol, muito devagar… ainda está lá. Posso sentir a resistência puxando o lençol no sentido contrário.
Olhos fixos na borda da cama, fico esperando que ao puxar o lençol algo se revele para mim e exija uma pronta reação. Sinto a minha boca seca, meus olhos não piscam e meu coração parece estar em cada parte do meu corpo… posso ouvi-lo bater acelerado.
AHHHHHHH MEU DEUS!!!!
Agora tenho certeza! O lençol foi puxado de volta para a extremidade da cama. De forma rápida e vigorosa, como um ato de represália.
Tento tomar coragem. Junto toda a coragem existente em cada fibra do meu ser. Puxarei esse lençol de uma vez, pedindo a Deus que me proteja de todo o mal.
Sempre tive medo de fantasmas, espíritos e afins…
O barulho das gotas na janela, os relâmpagos frenéticos e os trovões lá fora, parecem ter ficado irritados com minha decisão. Tentam agora minar minha coragem, tirando de suas mangas toda a sorte de amedrontamentos.
Me concentro no lençol!
Rezo… e peço baixinho por proteção.
De supetão eu puxo o lençol. Sinto o peso e abro bem os olhos…
MEU DEUS!!!
Aquele vulto negro voa sobre mim. Como uma flecha de sombras!!!!!
Antes que me atinja, pulo para o lado de olhos fechados. Agora sinto o toque de algo afiado em minhas mãos…
Abro vagarosamente os olhos, ciente de encarar o meu destino.
Ao ver aquilo, meu coração acelera subitamente e grito:
- GATO DESGRAÇADO!
Renato do Vale
“Tem pessoas morando no sótão de casa”
Disse cobrindo a coberta até a boca.
- Deixa de mistificar as coisas, não pode ler um livro de contos que já fica fantasiando.
( esbraveja).
[minutos intermináveis e clareia o dia]
O marido arruma-se para o trabalho, são 6 horas da manhã e o sol já está a pino. Beija a esposa que ainda está deitada enqt balança o molho de chaves e traga o último gole de café…sai despedindo-se e prometendo voltar mais tarde.
Passaram-se semanas e os barulhos no sótão voltaram, cada vez mais frenéticos..mais abundantes, e só acontecia quando o marido não estava em casa.
“Amor, tem alguma coisa de errada nessa casa, eu estou com medo de ficar aqui sozinha…eu juro pra você que eu escuto pessoas rindo e correndo lá em cima”
- Meu Deus! Que coisa amor, vc vai ter que tratar isso, talvez seja a ausência do local onde você nasceu ou a seu incosciente não aceitando viver aqui.
” Mas amor, eu juro que…”
- Chega! Não quero mais você falando essas coisas, pára já com isso….mais tarde estou de volta e a gente conversa.
[depois de chorar copiosamente ela adormece]
Em outro dia já pelas 22 horas da noite os barulhos e pisadas começam … houvem-se pequenas risadas.
Ela liga insistentemente pro celular dele no trabalho, sozinha sem conhecer ng numa terra distante…sente aflição, medo, náuseas …o suor gélido toma conta do seu corpo. Felizmente ele atende.
- Tá bom amor, já to indo praí. Calma phorra!!!
Ele chega e vai direto numa 22SLR com mira, confere a munição e sai porta afora.
Ela grita da porta:
” Onde você vai? Pelo amor de Deus, onde vc vai?”
Ele retorna 10 minutos após
- Não há ng nem perto aqui de casa. Você ta ficando louca?
” Mas amor, [ela diz soluçando] eu tenho certeza do que ouvi”
- Chega, vamos dormir que meu humor já foi pro saco.
A essa altura do campeonato ela já acreditava estar tendo algum problema psicológico e sentia-se insegura, cansada e infantil diante das afirmativas em dizer o que ouvia.
Passado um tempo… (tempo passando rápido pq eu tenho q terminar a história)
Uma manhã… 7 horas deitados os dois na cama, mas já despertos e olhando algum programa de tv, os barulhos começam…
[passadas pra lá e pra cá, risadas, assovios]
” Tá ouvindo? DIZ QUE TÁ OUVINDO!!!!!!! são eles! São eles! ” (já em pé em cima da cama.)
- Sim estou ouvindo….tem gente lá em cima!
” EU DISSE, EU DISSE, vc nunca acreditou em mim”
Ele levanta e vai até a varanda pra averiguar o que era.
(passado alguns minutos) [ rápido]
- São meninos amor, eles entraram entre o forro e o telhado pra pegar os pombos que estão lá!
” como é? então quer dizer q os barulhos são reais?”
[com a cara mais deslavada do mundo e sem um pingo de remorso por tudo que havia feito passar ele responde]
- São…eles só querem pegar os pombos!
Moral da história: Não duvide do que você não sabe, um cético pode ser um perigo.
Uma história verídica
personagens:
- Marcia Soleni
- Renato do Vale
- Meninos
- pombos
Local: Aracati, CE, ano 2007.
Márcia Soleni
Medo a medir
“Meça o medo, meça!”
E pus-me a medir…,
Obediente, rente
À ordem demente
Eu me obriguei a ir.
Enorme, ledo medo
Que descubro rubro
Engano, desde cedo,
Da coragem-visagem
Sem pró nem porção.
Mas descubro mais,
Em meio a surtos, ais,
E, enfim, assim cedo
A um lúgubre receio
Que a falação encerra:
De mim partira ela;
Sem medo então sorri.
Pregara-me uma peça?
“Meça o medo, meça!”
E pus-me a medir…
Evandro
Medos…
Tenho medo…
Se não os tivesse estaria morta…
Tenho medo do real…
Tenho medo do irreal…
Medo de baratas e insetos que voam?
Eu tenho…
Medo de sair à noite e ser assaltada e morta
por causa de 50 reais em minha bolsa?
Eu tenho…
Medo por apenas ter medo?
Eu tenho…
Desde quando descobri que o fantasma sou eu…
Tenho medo…
Tenho medo… muito medo…
Do quase desconhecido e…
do totalmente conhecido.
Tenho medo de mim mesma,
Porque meus medos mostram meu rosto
Naquele espelho quebrado….
Clara
1, 2, 3 estacadas…
era melhor cercar o terreno antes que os lobos invadissem.
- o que está fazendo? – ela perguntou
- estacando o terreno para preparar a cerca. Para os lobos não entrarem… vão comer as ovelhas.
- arrume um cachorro, ué! aí ele pastoreia e você não precisa ficar estacando o terreno toda a semana. Os lobos já derrubaram essa cerca velha umas três vezes!
vou pensar…
- ah, querido, vamos pra dentro. está frio – ela lhe lançou um olhar – tem outras coisas mais divertidas do que ficar estacando terrenos.
- coisas mais divertidas para estacar – ele riu-se.
- pois é – ela gargalhou e fechou o casaco em volta de si com frio, dando meia volta – já vi que você entendeu o recado….
A porta bateu atrás dele e, a despeito do convite tentador, ele continuou a estacar a terra ferrozmente.
De repente deparou-se com algo duro no solo que o impedia de finalizar o trabalho.
Cavando fundo, seu corpo tremeu.
Havia uma mão ali dentro!!
…E um braço!
…E uma perna!
Engolindo seco ele olhou para cima…
Ela acenava lindamente da janela embaçada, quase como uma pintura. E seu lábios sibilavam:
“vem logo, querido”.
Baixando os olhos, seu rosto ainda rígido e trêmulo – não sabia ele se de frio ou pela visão dos membros semi-enterrados no jardim, ele falou baixinho e somente para si:
- Para quê você quer um cachorro, querida? para que ele descubra finalmente o que há no seu jardim?
Ele olhou novamente para cima, seu rosto enrijecendo mais um pouco. A face ingênua e sorridente dela continuava a fitá-lo e seus braços acenavam… como se mal soubessem o que a casa guardava por trás dos sorrisos de doçura e normalidade.
Então, respirando fundo, ele fitou os membros novamente e seu rosto enrijecido relaxou, se abrindo em um sorriso de profundo prazer, enquanto ele limpava a estaca e rumava para dentro.
- Embora esteja ficando cada vez mais difícil escondê-los…. sim, querida… há coisas mais divertidas para estacar….
La Luna
Onze da noite e essa chuva… Daqui do alto, através da porta da varanda vejo a noite e toda essa chuva. Um grande pedaço da cidade sumiu, encoberto por tanta água.
Não gosto de noites chuvosas. Fico aflito, desorientado, abafado nessa casa toda trancada. Tudo muito escuro, noite sem Lua, apenas nuvens. Traços luminosos na rua me lembram carros. Devem ser carros. Mas não consigo distinguir.
Queria sair. Mas onde? Shoppings e cinemas fechados. Bares e restaurantes me obrigariam a trocar de roupa ao chegar lá, de tanto que chove.
Morar sozinho… Tem suas desvantagens. Uma conversa agora, qualquer conversa, me acalmaria. O porteiro está dormindo, já liguei, não atendeu. Não é hora de telefonar para ninguém, quase onze e meia. Só queria me acalmar, não acordar os outros.
Barulho no corredor. Vizinhos.
Não tem nada para ver na televisão, são cinco filmes repetidos e vários programas chatos. E eu aqui na sala, um copo de uísque na mão, olhar perdido na noite. Só e nervoso.
Novo barulho no corredor. Mas o que será afinal? Chego no olho mágico e vejo apenas a porta de incêndio fechando-se. O que um vizinho estaria fazendo nas escadas a essa hora.
Sobressalto-me. Meu telefone está mudo. Com essa chuva… O celular! Ok, funcionando. Vou até o quarto, abro a gaveta do criado mudo e verifico a 9mm. Carregada.
Volto pra sala, pego outro uísque. Verifico as portas. Fechadas, trancadas e com os trincos de segurança. Certo alívio.
Volto para meu uísque e para a noite chuvosa. Mais alguns instantes e algum relógio da casa anuncia o novo dia. Meia noite.
Mais barulhos no corredor. Agora me pareceu ouvir duas pessoas.
Mais um uísque. Viro a cadeira para agora encarar a porta. Meu uísque na mesa da esquerda. Luzes apagadas. Na mão direita, a 9mm destravada. No rosto, um sorriso.
Fernando



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