Seta

Tudo começou quando tinha doze anos, pelo menos achava, quando me chamou a escrever sua história. Não vou tentar diminuir o tamanho de minha surpresa quando me foi requisitado relatar tal cruzada, embora sempre esperasse a chance de poder relatar um episódio assim, contar uma fábula, de ter a chance de com minhas palavras alcançar os olhos, a mente e quem sabe a alma de milhões de ledores, essa era uma jornada que nunca imaginei ter a posse de narrar.

Na escola, sempre foi um alguém acanhado, cursando corredores sozinho, torcendo para que algo novo viesse e mudasse seu fadário. Era exímio jogador de basquete, ágil, inteligente, fato de que nada lhe servia rodeado de pessoas que só se interessavam por futebol.

Respeitador, boas notas, educação modelar, não contemporizaria muito até notar que este planeta não era o lugar para ele. Como tantos, viria logo a notar que a glória estava entre os que andavam nas sombras, nem que fosse um passo lá e outro cá.

Curioso é ainda ter a lembrança de sua primeira revolta. Enquanto conjuntura de pé, a esperar que sua mãe o pegasse na escola, observando os transeuntes andando como formigas aqui e ali. Notou que algo havia de similar a todos, um predicado obsoleto que os enquadrava por completo, todos num mesmo protótipo. Sentiu como se fosse apenas mais uma peça do jogo, um peão, e num lampejo de existência, misturando furor e paixão, fez algo que chocara a todos que o podiam ver, e que mais tarde, mesmo sem perceber, mudara completamente seu ser  e seu estilo de vida. E assim, decidiu, desembrenhando-se todo nunca mais usar sua camisa por dentro da calça.

Note que isso não é história do arco da velha, meados dos anos 80, embora muito tenha mudado de lá pra cá.

Seu primeiro confronto como novo “homem” que era, foi o evento até então mais positivo em sua vida.  A chegada de sua mãe a pegar-lhe logo com todas aquelas indagações absurdas, pelo menos à seu ponto de vista, sobre se havia brigado, o que ela teria feito de errado, se queria parecer um ladrão de cavalo, pois estava fora de lugar a camisa. Entrou no carro com a certeza de quem era e do que queria, disse simplesmente que aquilo o incomodava.

Depois de um longo discurso sobre a sociedade, a moral e os bons costumes, ela o perguntou se ainda queria usar a aquela moda suas veste, o que respondeu sem pestanejar que sim. Quase aos prantos a mãe o perguntou mais uma vez quem lhe deu o direito, o que em menos de um piscar de olhos, olhos este que brilhavam como nunca antes e era isso o que mais doía em sua genetriz, respondeu:

- Mamã! Tenho direito a minha opinião própria.

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Evandro

Nem da mãe, nem do pai,Da família, e ainda menos

Da serpente minha sogra:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Não tenho tutor ou padre,

Pai de santo, pastor, ora!

Se Deus existe, rogo agora:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Amigos calorosos, vis,

Interesseiros ou os fiéis,

Ávidos, em luta inglória:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Gente boa, e que ri à toa,

Aos prantos por todo canto,

E gentis demonstradoras:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Programas televisivos,

De rádio, Orkut, e-mails,

Telemarketing…: fora!

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Sedutoras e boazudas,

Histéricas carrancudas,

Imploro com as mãos postas:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Mensagem de celular,

Ambulantes, campainhas,

E oradores de uma ova:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Governos já desgraçados,

E os idiotas em frangalhos;

Mesmo convencidos na hora:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

Bom de papo, boa prosa,

Feirante ou vociferante,

Até a querida avó torta:

Exijo respeito a meu direito,

Direito a opinião própria!

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MM,s

Tudo começou quando ganhei um sorteio de um kit de molhos de macarrão num vôo da ponte aérea.

Tomei coragem e disse à aeromoça:

- Não, obrigada.

Em outros tempos, eu teria aceitado o kit. Desceria do avião arrastando aquele imenso pacote e depois não saberia o que fazer com aquilo, já que ainda por cima detestava macarrão. Eu senti um imenso prazer naquele ‘não’. Um ‘não’ da maturidade. Minha vida sempre foi um erro por causa do ‘sim’. Afinal, eu sempre disse ‘sim’ aos meus pais, ‘sim’ aos meus professores, ‘sim’ aos namorados, ‘sim’ ao chefe, ‘sim’ ao governo. Sim, agora era a vez do ‘não’. Deleitava-me imaginando as infinitas possibilidades que (não) se abrem do não.

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Naquela mesma noite, o namorado me disse na cama:

- Me beija amor…

- Não, obrigada.

No dia seguinte, à tarde, ele me pergunta:

- Não quer pegar um cineminha, benzinho?

- Não obrigada.

Na rua, o guarda me advertiu:

- Você está parada na faixa dupla. Sai daí.

- Não, obrigada.

- Como assim, não vai sair?

- Não, obrigada.

Levaram-me o carro. Mais tarde, no trabalho, ouvi do chefe:

- Você vai hoje mesmo pra São Paulo.

Essa foi a resposta mais saborosa do dia.

- Não vou, não, obrigada.

O chefe quase caiu pra trás. Achou que eu estava tendo um surto psicótico. Deu-me férias imediatamente. O plano estava finalmente começando a dar certo.

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Foram necessários apenas uns 18 ‘não, obrigada’ de minha parte para o namorado fazer as malas e deixar minha casa definitivamente. Agora eu estava livre daquele malaman, daquele carro que eu sempre detestei e daquele trabalho infeliz. Tudo isso graças ao milagroso ‘não’, ao meu direito de opinião e expressão.