um apartamento, um homem, uma carta fechada em cima da mesa
João Sanches
Me detonaram!
Isso que dava ao homem no apartamento, mó mêdo de abrir a carta!
Mas um Homem tem que combater o medo! Deixa eu ver a carta! Pegou a 9mm e deu cabo nela!
Eu pra enfrentar uma 9mm?
O Seta
Apartamento fechado,
Silêncio profundo.
Som! Só o da penumbra.
Não há ar.
Não!
A vida…
Sobre a mesa,
Uma carta fechada.
Protegida pela ausência:
Da luz,
Da libido,
Da dor.
Atônito,
Mantenho-me em paralisia.
Olhando para o avesso,
Procurando chama,
Ou um traço de alma qualquer.
Mas não para minha surpresa,
Ali…
Descobri a verdadeira escuridão.
Marcia Soleni
Projeto roubo informado
Ele nú, vergonhas à mostra, balanceia-se no apartamento fechado olha atônito a carta, já antevendo o seu conteúdo drástico.
O pensamento da morte moral lhe vem em sobressaltos ele sente todo o peso do seu corpo na garganta.
Os momentos que antecederam os passos até o conteúdo lacrado, eternizou a sua agonia. Molhado, ofegante e de olhar baixo ele se aproxima da mesa e tenta ousar da coragem pouca pra abrir o certame do seu destino.
A carta rezava em poucas linhas:
” Fui, levei tudo aquilo que te dei..incluindo as roupas…passe bem…ou melhor, não passe, o ferro vai tirar umas férias…cuide-se e não esqueça de molhar as plantas”
Ele relê e com todo o poder de suas mãos…vai lá e mata a carta.
END
[na foto que o Seta pos ele ta pelado, podem conferir]
Fernando
Ele chega em casa sem ter certeza de o que lhe reserva o resto da vida. Ele duvida de tudo. Das coisas que lhe disseram, dos ensinamentos recebidos, do catequismo, da mãe. Duvida da vida. De Deus, até.
Olha para a casa, olha para as paredes, os móveis, as cores. Ela está em tudo. Na sua pele, nas lembranças, no dia a dia e nos filhos. No destino. Ela É a sua vida.
E agora? Como será o resto da vida sem ela? Triste. Cinza. Negro. Sem graça. Injusto.
Tanta gente ruim, tanta gente má, tanto bandido, ladrão, mau caráter. E quem se vai? Ela!
O apartamento está vazio. Os filhos, com a avó materna. Como dizer? Qual ser humano sabe como dizer a um filho que sua mãe não voltará? Que ela nunca voltará? Que sacanagem é essa?
Pais viajam, trabalham, se arriscam, passam dias ou semanas fora de casa. A mães nunca se ausentam. Acompanham alegrias e tristezas, provas boas e ruins, os pais? Às vezes me esqueço para que nós servimos…
Porque elas, Senhor?
Essa casa fechada… Triste… Essa casa sente a falta de sua alma.
Em cima da mesa, uma carta. Um envelope. Laboratório. E faz alguma diferença agora?
Indiferente à carta, ele senta e chora.
Renato
Nem sei que hora são. Parece que estou ali a semanas. Naquele momento, naquele exato segundo eu nada ouvia além de um intenso burburinho abafado que mal era percebido por mim. Os meus olhos tampouco enxergavam algo naquele exato momento.
De olhos fechados, viajo por segundos. Eu ainda posso sentir aqueles lábios doce e malignamente perigosos. Lábios de outro. Desejo. Aquele corpo, naquele vestido vermelho. Aqueles olhos. Realmente… foi uma loucura.
Aos poucos cai na realidade. O show tem que continuar.
Abro os olhos e tudo fica novamente e sinistramente claro. Ali está ela, linda. Preocupada.
A minha volta quatro ou cinco idiotas armados.
Apostei minha vida. Dizem que sorte no jogo é azar no amor. Crendices.
A minha frente, meu credor. Olhos cravados em mim. Tudo está por um lance.
- Você acha que tem sorte rapaz? Disse ele no começo daquela noite.
- Vamos jogar pela vida dos pombinhos então!
É a minha última carta. Minha última pedida.
Ainda fechada em cima da mesa de veludo verde.
Que tipo de maníaco tem uma mesa de Black Jack no seu apartamento?
O maior bixeiro da cidade? É. Esse tipo de maníaco.
- Abra logo essa maldita carta! Ele grita.
Meus dedos percorrem o veludo e param na carta.
Viro de uma vez a carta e segurando-a entre dois dedos arremesso-a sobre a mesa.
Viro as costas já em direção a porta. Seja qual for o resultado, uma parte da minha vida acaba aqui.
Evandro
Aí vai, gente!
Um apartamento, um homem, uma carta fechada em cima da mesa.
Amanhecera. Os olhos ainda fixos, pregados na face e direcionados a único ponto, permitiam entender aquele ar de cansaço profundo, de lentidão, a atestar a insone experiência, a extenuante condição da espera, da tibieza de quem se reservara para depois de tantas horas verificar se suficientes já as forças para realizar o comezinho abrir de uma carta, carta que chegara ao curso da tarde, como de costume lhe era entregue a correspondência pelo porteiro do edifício. Saído àquela hora do banho, permanecia desnudo, imóvel, a pensar confusamente sobre as chances do seu conteúdo. Estava quente o dia. Espremido de ansiedade, quedava manietado a vislumbrar o objeto recoberto por aquela camada tão rançosa de pensares turvos, mornos. Ouve então no apartamento vizinho som que chama sua atenção, de um noticiário local de televisão. Preocupa-se, pois algo tem que ser feito; daqui a pouco as pessoas vão chegar. O telefone fora desligado, mas sem dúvida alguém viria em seu encalço, seria procurado. O que teria acontecido com ele? Sorriu sem graça alguma e levantou-se. De pé, pôs-se a caminhar em direção à mesa. Tomou a carta em suas mãos, conferiu o endereçamento. Nada no envelope dava a menor notícia de quem lha remetera… Merda! Caminho sem volta; tudo estaria estampado ali, grafado com o ódio que temia consentir merecia receber do missivista. Mulher maldita! Que faria dele? Que faria ele de si. Fim de seu inferno: rasga o envelope num golpe só e, escancarado de coragem o peito, deita o olhar sequioso sobre a folha dobrada e sua face brilha e ele gargalha enlouquecido e bate-se contra a parede com aquele papel agarrado em suas mãos, trazido ao coração, à boca… Senta-se. Nada diz. Parece catatônico agora. A folha amarfanhada cai sobre a forração do assoalho. Em branco!!!
*&ominique
(Em sua homenagem, Clara… Saudades (2)
Um apartamento, um homem, uma carta fechada em cima da mesa.
O normal é que fosse simples, festivo, jovial e encantador.
O normal é que a vida estivesse recheada de sonhos e que se servissem sonhos na festa, pois havia a criança e tudo era novidade.
O normal é que o bolo sustentasse sem qualquer esforço as 25 velinhas. E tudo teria que ser diferente, pois em dezembro também é natal.
O normal é que o homem estivesse feliz. A criança também. E todos os amigos e familiares sorrissem juntos e trocassem presentes.
O normal é que houvesse tempo para as centenas de livros guardados na estante e no computador; para as centenas de músicas que se pretendia ouvir com a filha, principalmente as clássicas; para a dezena de planos que incluíam o crescimento, o casamento e a profissão.
O normal é que a vida continuasse desse jeito que a conhecemos, com alguns sustos, algumas dores, mas sem excessos, sem tumores. Sem essas abstrações que nos enchem de inquietação quando o assunto é a não-vida.
Como é lindo transcender!
Como é lindo construir moradas no paraíso!
Como é lindo descrever os céus!
Mas o normal, normal mesmo, é viver.
A não-vida é coisa para a literatura, para as ciências, o teatro. A não-vida serve a tudo, em qualquer dimensão, atende a tudo, menos à realidade. Essa nojenta, imperfeita e medíocre realidade que me faz palpitar, ter dor-de-barriga e chorar.
E eu choro pela incerteza;
Choro pela impotência;
Choro pela menina que perdeu a mãe;
Choro pelo pulmão que não consegue respirar, pelo coração partido, pela não-vida;
Choro por mim e por aquele homem que deveria se vestir de papai-noel e presentear a menina, e que talvez até o faça, antes de voltar ao apartamento, se sentar à mesa e abrir a carta já tantas vezes lida.
Ao desdobrar a folha, seu olhar é imediatamente atraído para o seu centro. Lá, apenas uma palavra: Saudade.
°Thay
Um homem, um apartamento, uma carta fechada…
Era ele, 52 anos, olhos pretos, grandes, há 24 anos o descobrimos.
Ele parecia não lembrar de nada que houvera atormentando insistentemente seus últimos anos.
Lembranças que epileticamente descompassava seu pulso e sistema nervoso… apenas medo, dor e ódio.
Na sala, fechada, parada, sem vento, sem som, sem luz.
Observando-o, em um close fechado .
Ele anda, 2 m², chão de cimento que arranhando seus pés causa um desconforto aparente.
Um envelope, uma carta, envelhecidos por nós com vinho e secador, continuava lá.
Tamanho trabalho tivemos para fabricar aquele papel, aquele envelope.
Há 20 anos plantamos a árvore, com todos os cuidados necessários, criamos a semente depois de muitas pesquisas nos laboratórios, colhemos a tal celulose, seguimos as instruções que encontramos em velhos registros, tamanha sorte, depois da fatal destruição.
Tudo foi feito para que existisse afinidade entre ele e aquele papel, esperamos que a qualquer momento ele use.
Essa é a mais importante experiência que já fizemos em todos estes anos de pesquisa longe de casa, nossos cientistas, registradores, satélites , estamos todos empenhados esperando.
Ele é nossa última esperança. A nossa resposta.
Ele continua caminhando, aparentemente nervoso, avista o envelope, rapidamente o pega, há um semblante de felicidade. (Nossos marcadores de emoção estão compassados todos num ritmo acelerado, na nossa tela virtual, nossa resposta, a resposta de tantos anos de pesquisa, tantos esforços, rostos curiosos, atentos, parados, imóveis).
Ele entra num pequeno quarto do lado esquerdo da sala.
Minutos depois volta. Um barulho de água, a porta se abre.
Na mão, nada.
Roubet
blog7
Na sala em penumbra, um homem caminha trôpego, ele ri, chora, grita impropérios e inesperadamente, estanca como uma estátua, o suor gélido e mortal lhe escorre pelas faces, olhos esbugalhados em vermelho ódio, dirigem-se a carta sobre a mesa, passam-se segundos, minutos. Desaba em prantos e pega a carta sobre a mesa, uma simples folha dobrada, que fora colocada sob a porta por um mensageiro qualquer, mas lhe é impossível ler as poucas linhas escritas.
Volta em agonia a caminhar pelo quarto, agora em círculos, amassada, na sua mão direita a folha. Está fora de si, fazendo juras de amor e promessas sem fim como se uma linda mulher lhe prestasse atenção, apaixonadamente, jura amor eterno, caso aceite o pedido proferido no dia anterior, fala-lhe os planos de uma vida de maravilhas de fidelidade de amor eterno, pede desculpas, e por ser tímido é alvo de pilhérias entre “amigos”, motivo de piadas.
Suas faces diante da lembrança da amada tornam-se suaves.
Olha para mão, começa abrir a folha na intenção de ler, não tem coragem teme a negativa da amada, após tanto esforço para declarar-se, parecia não haver chão nessa hora. Agora lhe faltava coragem para ler a carta tão esperada, a cada tentativa de leitura, uma profusão de ódio e desprezo por tudo e por todos. Tomara todo seu corpo a raiva insana, todo o seu ser, e toda sua alma.
Colocara a carta de novo a beira da mesa, além de andar, socava as paredes dizia coisas inteligíveis contra todos até sua amada, agora odiada.
E no auge da loucura vai ao quarto e volta com uma arma na mão. Culpa o mundo e os seres por sua vida desgraçada, pela chance de amor e da amada que julga perdida, em sua já insanidade.
Aponta a arma na fonte sem vacilar, aperta o gatilho, um estampido seco ecoa rápido e curto em seus ouvidos sequer tempo para dor. Cai ao chão e durante a queda sua mão involuntariamente puxa a folha, que cai aberta ao chão, onde se podia ler: Amo-te com toda minha alma estarei aí em breve. Beijos da tua amada.



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