Evandro

A cerimônia iria começar em pouco tempo. Otacílio estava ansioso, nos nervos, prestes a ter um troço a minutos da cerimônia de seu casamento com Carla Valdete. O dia se arrastara preguiçoso; as horas não passavam! No almoço, a vizinha, Juramar, aquela gostosa que o atendera por tanto tempo, sobretudo em épocas de vacas magras, antes de conhecer a futura esposa, lhe preparara um ensopadinho consistente, apto a forrar sala de raios-X! Que gentil, não? Um amor de vizinha, que deixaria saudades e mais saudades…
Pois bem! O momento chegara: Carla Valdete – Ca Val, como a chamava carinhosamente -, linda, estava ali. O vestido naquele corpo franzino chamava a atenção. Faria um grande negócio; o sogro lhe sorria e ele a ele mais ainda sorria um sorriso denso. O pessoal do cerimonial orientava os padrinhos à entrada na nave do templo quando percebeu o suor, rapidamente enxugado.
E assim foi. Tudo corria bem, mas o suor insistia em tomar parte na celebração. Até que, ao findarem os votos, momento em que pôde olhar melhor, notou duas coisas: a falta de Juramar e um certo incômodo, no qual ela se fazia presente, porque ato contínuo borrou-se inteiro para grande surpresa e desespero de todos – coisa tão estrepitosa quanto fétida, arrasadora e fatal.
Não houve bênção, nem beijo, nem…, nem mais nada! Aliás, só houve a recordação, no hospital, depois dos necessários procedimentos para estancar os jorros malditos, das últimas palavras, carregadas de ironia, do amor ou tesão (ambos?) posto de lado: “tambéim num vô tisquecê, môr…”.

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Seta

Um carro cruza a cidade. Samuel está dirigindo a toda. Seu carro canta o pneu numa curva. O calor é insuportável. Faz com que ele se lembre do porque odeia usar terno. Do porque odeia esse tipo de cerimônia. Mas dessa vez é a dele. Por isso ele tem que se apressar.

As pessoas começam a comentar. O burburinho começa na igreja. Onde estaria o noivo. Faltando tão pouco para o casamento. Será que ele vem? As histórias começam. “Ouvi dizer que ele desistiu do casamento”. “Também… do jeito que essa noiva é controladora…”. Elisa não escuta nenhuma dessas frases de dentro do carro. Mas… Pela cara das pessoas… Imagina que estão falando dela.

Quase atropelou um cachorro. Maldito cliente que o segurou até essa hora. Mas ele ainda tem uma chance. Não pode parar mais um só segundo. Chegará atrasado. Mas não o suficiente para estragar por completo o casamento.

Eliza promete a si mesma que vai matá-lo. Quando ele aparecer. Se ele aparecer. “O que os convidados vão pensar?”. “Ser abandonada no altar!”. O motorista percebe a situação e resolve dar mais uma volta. Para afastá-la um pouco da igreja. O carro vira a esquina com calma, para não perceberem.

Outro carro faz uma curva. Mas esse é em altíssima velocidade. Samuel quase perde a direção. Faltam mais alguns quilômetros. Alguns minutos o separam de seu destino. Do resto da sua vida. Um farol fecha a sua frente. Um carro pára. Ele pisa no freio com força. Não sabe se conseguirá parar.

O carro da frente parado. O reflexo rápido e sem tempo de pensar. Seu pé no freio. O farol fechado. O carro derrapa. Ele fecha os olhos e reza. Para que o impacto não seja grande.

O motorista fala novamente com ela. “Para onde agora senhora?”. O carro está novamente na frente da igreja. Samuel não chegou. E ela não sabe como responder essa simples pergunta. Fecha os olhos… E finalmente responde… “Vamos embora. Acabou!”.

Com a força abrupta da brecada o pneu acaba estourando. Ele não entende porque, pois aquilo na era comum. Parecia algum tipo de falha. Mas a falha o salva. O carro derrapa com um dos pneus estourados e simplesmente sai da rota de colisão com o outro carro. O impacto da subida na grama é forte, mas com certeza mais suportável do que seria a batida no outro carro.

O estrago no carro não foi muito grande. Maldito sortudo. Um acidente que podia matá-lo. E ele simplesmente se safou. Porque o pneu estourou. Engraçado. Seu celular está sem bateria. Ele precisa ligar para Elisa. Agora teria uma boa desculpa.

“A senhora tem certeza?!”. É a pergunta do motorista. “Lógico que sim!”. Ela responde. Não vai mais casar. E quer fugir ali da Igreja. Sumir. Chega. E aos prantos manda o motorista acelerar o máximo possível. Para escapar da Igreja. Dos olhares. Até mesmo o motorista se abala. Ele faz o que ela pede. Acelera. E não vê o homem que atravessa correndo.

Elisa tenta ajudar aquele homem. Desesperada. Um desconhecido morrendo bem ali na sua frente. Seu vestido todo sujo de sangue. O motorista tentando segurá-la. Afasta-la do corpo. Mas ela ainda acha que pode salva-lo. Acaba traumatizada. Culpa-se pela morte daquele homem. E carregará o peso dessa culpa por muito tempo dali pra frente.

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Fernando

A noite estava perfeita, sem chuva, sem calor, sem frio. Uma imensa lua iluminava a cidade, banhando de romantismo a noite de sábado. Sinos tocavam na Catedral em sinal de festa, anunciando o casamento. Os noivos descem a escada, se despedem e convidam a todos para a festa a realizar-se nos salões do Automóvel Clube.

Na festa, nada de economia, pois o pai da noiva podia gastar e realmente gastou bem. Uma “Big Band” tocava músicas inesquecíveis. Nos buffets espalhados pelos salões, comida da melhor qualidade. Bebia-se Black Label e Don Perignon à vontade. Água mineral, apenas Pellegrino. Alguns senhores fumavam “habanos”. As mulheres exalavam os melhores perfumes que o dinheiro pode comprar.

Colunistas selecionados e discretíssimos anotavam os detalhes, vindos de três capitais. Casamento do ano? Talvez do século. As famílias dos noivos estavam entre as mais ricas do país. Chegou-se a cogitar a presença do Presidente, que não veio mas mandou representante. O Governador estava presente.

Por volta das onze horas, o pai da noiva convocou a família para uma sala reservada, inclusive a mãe da noiva. Diziam que nunca mais se falaram depois da separação, há mais de dez anos. Nunca mais se viram com certeza. Nesses dez anos, era a primeira vez que se encontravam sob o mesmo teto. A separação havia sido ruidosa, escandalosa. Dos cinco filhos, a noiva e caçula foi a que melhor lidou com a situação, conversando com ambos e acertando arestas.

- Eu os chamei aqui para dizer duas coisas, meus filhos. Em primeiro lugar, nosso jatinho irá levar os noivos para a lua de mel na Europa. Portanto, se precisarem, teremos que alugar outro.

Aplausos. Alguns se emocionaram. Os filhos ergueram um brinde aos noivos.

- Em segundo lugar, quero convidá-los para o meu casamento mês que vem.

Silêncio. Nervosismo. Todos olharam imediatamente para a mãe, estranhamente calma.

- Eu e sua mãe vamos nos casar de novo.