Uma noite de chuva, a luz do poste refletida na janela, uma porta… e um barulho que não se sabe identificar.
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Marcia Soleni
Esperança
Ele nãovem! Bobagem minha aguardar, ansiar … Esmorecer em pensamentos.
Meu gesto inconsciente é de olhar pela janela….sofrer olhando freneticamente mais vezes do que os ponteiros do relógio são capazes de andar….Ele não vem!
Estupidamente eu me debruço no parapeito, projeto-me pra fora e olho pra baixo….pingos de chuva molham os cabelos… lá embaixo a rua molhada e escura continua vazia, absorta dos meus devaneios.Não há nada além dos latidos dos cachorros e do barulho da estação…
Ele não vêm… é um fato!
Admitir a humilhação, a tortura….a fraqueza!
Minhas pernas tremem, minhas mãos fecham o rosto num gesto de indignação. É fato, Ele não vem!Deitada, braços estendidos em direção da porta, observo a chuva fina e incessante, a luz fraca da luminária da rua, cria pequenas imagens no vidro embaçado do quarto.
Ele não vem! Resigno-me na tristeza mais profunda capaz de corroer os meus ossos.
Meus braços doem e meu corpo todo geme como uma presa fácil.
Choro, choro baixinho….sinto as lágrimas percorrem o rosto e o salgado tomar conta de minha boca.
Abafada entre as cobertas, eu escuto uma batida seca, que vem da parte interior do prédio… disparo em direção à janela! Será Ele?
Meus Deus! Será!?
O barulho cessa e não há direção de passos na subida do rol …sofro!
Ainda com os olhos marejados, deixo cair o corpo sobre a cama….desisto.
Um pequeno toque, porém, tímido e desprovido de força vêm da porta de entrada do apartamento.
Corro em sua direção (…)
- Moça! São R$25,00. Desculpe a demora!
- Não tem problema, obrigada.
Volto ao ambiente interno ainda segurando a caixa., abrindo-a com a agonia de um condenado, exclamo:
-Raios, esqueceram que era com borda a pizza!
João Sanches
O peixe? Ora o peixe…
- É muito tempo. – pensou! Gostaria que seu filho querido Melaquias o estivesse ajudando neste trabalho mas, ele resolveu ir à cidade grande fazia uns 8 anos atrás e estudar! Foi uma briga! O filho simplesmente desertou de casa e se mandou.
- Coisas da mãe deli – pensando – comu um caiçara forte e isperto qui nem eli si arresolve a debruçar im livro qui num dá im nada prá sustento de família? – Tinha pouco contato com o filho, só sabia de suas notícias pela esposa! – Eli si formô – disse ela uma vez!
Saiu a pé! Afinal sua casa era perto do cais, sonhava com a sopa quente que a esposa fazia, sempre o esperava! Luciene! Não sabia o que havia feito para merecer uma mulher como ela! Sentiu saudades do lar, da esposa e por causa da noite de chuva, resolveu ir direto pra casa ao invés de passar no bar do Belafonte como de costume. – Tô ficandu véio! – pensou.
- Ladrão – pensou! – Luciene!
Pensou em ligar à polícia, mas descartou! Até que os policiais Zeferindo e Josenildo, que sabia estarem de plantão começarem a se mexer poderia ser tarde demais!
Resolveu entrar pelos fundos, pela porta da cozinha, bastava pular o pequeno muro de alvenaria que já rogava por uma pintura nova, o portão da frente estava enferrujado pela maresia e poderia alertar o suposto ladrão! Passou um pensamento! Luciene? Com um amante? Afinal chegou cedo! – Cruzimcredo! – fazendo o sinal da cruz – Vô pegá o disgraçadu!
Ao ouvir a voz, se quedou estático, com o facão no ar! Como? Reconheceu a voz e as feições do seu filho querido, agora adulto e com bigode! Ainda estático ficou quando o homem o abraçou chorando!
- Melaquias? – falou! – Meu fio?
Ô homi! – disse Luciene – é u nosso fio, istávamos todos ti isperando nu seu Belafonte pra fazer a festa! É seu aniversáriu vivente! Comu num se apresentava, pensamus que veio a casa, tão todus aqui!
Aí viu o pessoal entrando molhado pela porta, guardando suas capas e guarda chuvas. Roberval, Jusileide, Belafonte, Zeferindo, Josenildo, seus ajudantes do barco e mais gente carregando embrulhos e cestas de comida e bebidas.
Ainda estático com o facão no ar, ouviu seu filho falando.
- Pai, sou advogado, estou trabalhando no Distrito Federal na assessoria do Presidente e estou muito bem!
Vixe! Agora tenhu um fio cumunista – pensou, abaixando o facão – i ainda pur cima advogadu!
- Melaquias, dipois genti si cunversa, agora vâmu dá de cumida a estes viventes.
E com todos se sentando na larga mesa da sala, começaram a se servir.
Viu sua Luciene colocar na sua frente um prato com vegetais e postas caprichadas de peixe de cor vermelha.
- Qui peixi éieste?
É salmão pai. – disse o filho – trouxe lá da capital.
- Mêdeducéu, o mundu tá perdidu – pensou – té peixi tá virandu cumunista!
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Roubet
Eram mais ou menos 23hs e 30min, a noite estava escura e a chuva fina esfriara o ar, o homem parado embaixo do poste iluminado pela luz que deixava perceber seu porte, alto, forte, de beleza mediana, cabelos bem penteados, barba feita, trajava uma capa de chuva alinhada que lhe dava um ar de mistério.
No apartamento do 1º andar do prédio uma luz tênue é acesa, a mulher levanta-se da cama envolvida pela solidão trajando um penhoir cor fumê que lhe denota as curvas e o corpo bem feito, uma onda de calor percorre seu corpo, dirige-se a janela na intenção de abri-la, mas nota as gotas de chuva que escorrem pela vidraça, olha pela janela e nota a figura iluminada pela luz do poste e lembra-se do traje exíguo e volta, senta na cama, começa a pensar na figura do homem, era agradável, sua silhueta lhe parecera sensual. Essa visão transforma o calor do seu corpo que agora arde em pensamentos, aquele homem era a solução para sua solidão. A onda de calor percorrer seu corpo sensual, ela passa a mão em suas coxas em carinho, toca levemente os seios, o calor aumenta imagina-se em colóquio amoroso com àquela figura máscula, levanta-se vai até a janela para olhar o homem, a luz do poste pisca.
O homem olha para o relógio, mas a luz falha e se irrita, olha em volta a rua deserta só a chuva por companheira, olha para o prédio atrás de si e nota a janela levemente iluminada com a silhueta da mulher, a luz agora não falha e permite que ele note melhor a silhueta de seios firmes e rijos na janela, ele vira o corpo para olhar melhor e ela percebe sua intenção e sai, ele continua olhando esperando que ela volte, à luz falha novamente, só pode notar as gotas de chuva na vidraça.
Ela deita-se na cama, pensamentos obscenos tomam-lhe a mente, imagina-se na companhia daquela figura máscula na cama, beijando suavemente seus lábios, sentindo mãos fortes e macias tocando e percorrendo seu corpo em carinhos que lhe arrancam “ais” de prazer e luxuria, sentindo o corpo dele colado ao seu, abre os olhos e seu corpo estremece, o calor percorre todo seu corpo e sente seus lábios úmidos e se levanta como se tentasse fugir de tais devaneios.
O homem olha o relógio, descontente por se encontrar ali esperando, olha a janela como se atraído, percebe a silhueta da mulher que agora a luz permite notar com riqueza de detalhes, ela o olha, parece ansiosa, ele sorri, ela meio constrangida corresponde. Ela faz gestos labiais, ele não entende, mas assentiu com a cabeça, ela sai da janela e volta com um papel e uma chave, joga para ele que sorri e pega a chave.
Ela sente o corpo em brasas, pensa nas horas de prazer que terá com aquele homem, um ruído da portaria se abrindo chega aos seus ouvidos, ruído de passos e na escada, seu corpo arde em volúpia sem se aperceber já acaricia os seios e sua mão penetra entre as pernas e toca sua vagina, os bicos dos seios se enrijecem, seus lábios entre abertos soltam “ais” e sua respiração é forte. A porta se abre e aquela figura máscula a sua frente, trazendo com ela um perfume amadeirado que toma a sala, ela o olha com um sorriso, já sente o muco vaginal escorrendo e caminha para ele com respiração arfante, ele a olha com um olhar sério e penetrante como se a desnuda-se, caminha para ela retirando a capa e diz: – Oi queriiiiiida posso usar seu telefone rapidinho? Acredita que meu bofe me deu um bolo daqueles e…
Renato
Durantes minhas noites, há sempre aquela mesma luz, aquele mesmo poste…
Hoje há um ruído que ainda não posso identificar. Em meio a chuva que escorre tento identificar o ruído enquanto lembro…
Exatamente deste ponto, há algum tempo, assistia um formigueiro de pessoas orgulhosas e absortas em seu trabalho de construção. Pouco depois eu vi um homem destemido e calvo andar num vai-e-vem frenético por essas ruas largas, até que lhe deram uma bela faixa.
Pobre homem, foi morto anos depois.
Assisti essas mesmas ruas que eram símbolo de um uma vitória, de toda a pujança e liberdade de uma nação serem tomadas por homens sisudos, vestidos de verde e com armas na mão. Quanta violência desnecessária. Emudeci.
Passaram-se os anos de chumbo e eu vi deste mesmíssimo lugar uma enorme euforia seguida de grande tristeza. Deve ter sido um bom homem, afinal, todos choraram por ele.
Seguiram-se anos de relativa calma. Embora pudesse ouvir de forma bem nítida as pessoas pedindo por mudanças, lideradas por um senhor magro e de olhos de um azul profundo. Acho que conseguiram, afinal assisti também a felicidade dos mesmos alguns anos depois.
Como pode tanta gente ficar tão feliz com um livrinho? Será que todos eles o escreveram?
Incrível como as coisas mudam. Anos depois essas ruas foram tomadas por “Mauricinhos” que seguiam a um senhor jovem e até bem apessoado. A multidão parecia adorá-lo.
Quando achei que dessa vez tudo daria certo, apareceu um batalho em marcha. Mochilas nas costas, cara pintadas em sinal de guerra e gritavam! Como gritavam.
O mais esquisito é que essas pessoas pareciam estar irritadas com aquele homem que antes todo mundo adorava.
Daqui eu pude ouvir o grito de euforia quando puderam “vencer” o inimigo.
Agora está usando a faixa aquele senhor de fala simples e que todos choraram quando ganhou a faixa. Parece que gostam dele.
Esta noite as luzes dos postes que sempre me foram companheiras foram apagadas. Ainda ouço ruídos estranhos…
Agora entendo… vão me trocar.Durante todos estes anos como uma simples janela da câmara dos deputados, vi Brasília e o país crescer. E da minha forma humilde, eu contribui.
Desejo toda a sorte para esse país.
Evandro
Aí está!
Noite de escuridão,
Noite de cão!
O foco de luz é público, vadio, balança
E seus raios esmaecidos tropeçam em minha retina sensível.
Desatinos…, destinos…, defenestrações…
Como pude vir parar aqui, neste antro,
Neste mísero espaço, imundo e sufocante?
Quarto de hotel!…
Quinto, sétimo, nono; tudo, menos quarto.
Aliás, décimo andar. Péssimo! E eu só desço
Por esses caminhos-corredores lúgubres, funestos,
A espreitar minha lida de espirais, escalas, réguas, prumos…
De quê lado da janela estou?
Ou preso nela, na vidraça poeirenta, com desenhos tortuosos
De meus dedos engordurados.
Pó que já não me sai, sujeira em minha pele curtida.
Lavo, lavo e a lava gruda, formam-se mais e mais
Grumos, formas,
Formas-pensamento, idéias de pavor…
Ah, é você???
Você existe mesmo? Aí, à porta;
Diga logo se é você ou vá também
Feito as demais ilusões que produzi a esmo,
Que encarnei, trouxe às entranhas, só para despir depois
Banhado em choro e suor na cama em que me arrependo
Desta vida conspurcada,
Arredia, lancinante, doente, terminal.
Tão noir, e que não cai…, afinal.
Fernando
Como terminar sem brigas, sem motivo? Haveria alguém? Nada conseguia explicar essa ruptura.
Desceu do ônibus. Estava sufocando com as janelas fechadas. Chovia. Resolveu andar, sim iria a pé. Mas seus pés erraram o caminho e quando viu estava na porta do prédio de Sandrinha. Tantas vezes fizera o caminho! Mas agora não podia entrar, sequer apertar a campainha. O amor imenso, aquele carinho tão grande pela amada o impedia de chegar mais perto, de ligar e falar com ela. Queria que ela não sofresse, temia ser inoportuno e causar dor. Se bem que dor alguma pudesse ser maior que a dele.
Parou e voltou alguns passos. Ficou perto da esquina, onde podia se esquivar, se esconder. Os olhos fixos na janela do terceiro andar iluminada pela luz do poste que refletia. A chuva batendo na janela iluminada o hipnotizou. Minutos a fio olhando. Lembranças passando pela cabeça.
Um barulho estranho o despertou das lembranças. Assustou-se. Retornou um pouco para não ser visto. Um carro chegou com o som muito alto. Parou na porta do prédio. Vários minutos se passaram, uma eternidade. Boca seca. Coração a mil. Os olhos marejavam lágrimas. Uma porta do carro se abre, desce alguém que não era Sandrinha. César volta a respirar. Encosta na parede, trêmulo.
- Oi, César! Que bom te ver aqui. Tava me esperando?
- Não, balbucia. Apenas saudades, Sandrinha.
As palavras fugiam de sua boca e de seu cérebro. Ele tremia, pego na vigília.
- Muitas saudades. Me desculpe, eu não queria te incomodar. Estou indo.
- Vamos subir. Eu também estou com muitas saudades.
Depois de algumas semanas, pela primeira vez um sorriso tomou seu rosto.



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